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Mostrando postagens de maio, 2026

LÉO 07/10

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        Léo atravessou a ponto de Niterói para o Rio com a alma lavada e o coração em paz. Mas, como diz o ditado, a alegria de pobre dura pouco, e a do Léo dura apenas o tempo de um sinal fechar.      Assim que estacionou em frente ao seu prédio, deu de cara com um caminhão de mudança e uma faixa esticada de janela a janela: "Bem-vindo ao lar, meu herói!".     Antes que pudesse engatar a ré, a filha do dono da padaria — aquela do vazamento na cozinha — surgiu do nada com uma chave na mão e um brilho possessivo nos olhos. Ela não estava sozinha; ao lado dela, o pai, o padeiro portuga, segurava um rolo de massa como se fosse um cetro. — Léo, meu filho! — exclamou o velho. — Já que você salvou a honra da minha menina naquele dia do "conserto da pia", decidimos que você não pode mais viver nesse aperto. Aluguei o apartamento do andar de cima pra vocês!    Léo sentiu o suor frio. A "ajuda" na cozinha tinha virado um noivado por aclamaçã...

LÉO 06/10

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       O sol ainda não tinha acordado quando Léo pegou a estrada para Nova Friburgo, buscando o frio da serra para ver se congelava aquela saudade que não o deixava em paz. O alvo era Selminha, a única que ele nunca deixara entrar em sua lista de "ciladas". Selminha era diferente; para ela, o "bom dia" de Léo sempre tivera o peso de uma promessa.      Ao chegar, o choque térmico: Selminha estava casada. Ele a viu na Praça do Suspiro, de braço dado com um sujeito sólido, de expressão quadrada — o oposto do magnetismo fácil de Léo. Quando os olhares se cruzaram, o tempo em Friburgo parou. Não houve escândalo, apenas aquele riso de canto de boca que só quem tem um passado mal resolvido consegue decifrar. O ar da serra, que deveria ser puro, ficou carregado de uma eletricidade perigosa.      Nos dias seguintes, a cidade virou um tabuleiro. Encontros "acidentais" na Padaria do Paissandu, trocas de olhares por cima das prateleiras do mercado. ...

LÉ0 05/10

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      O Antenor voltou da viagem dois dias depois, trazendo na bagagem o cansaço das estradas e aquele mau humor típico de quem passou horas resolvendo burocracia de fornecedor. Mas, ao cruzar a recepção da pousada, ele travou. Valéria estava radiante. Usava um vestido de flores que não saía do armário havia tempos, cantarolava um samba antigo e exalava um frescor de quem tinha acabado de tirar a sorte grande. — Mas o que é que deu em você, Valéria? Ganhou na loto ou a conta da luz veio barata? — perguntou Antenor, largando as chaves no balcão, desconfiado.     Valéria deu um sorriso que, se fosse no Rio, parava o trânsito da Avenida Brasil. — É o ar da montanha, Antenor. E a caridade. Temos um hóspede novo, um rapaz de uma educação... rara. Ele me ajudou com a "organização" de uns quartos que estavam parados enquanto você estava fora.     Léo, que assistia à cena pela fresta da porta da cozinha, já estava com a mala pronta e o suor frio escorrendo pel...

UM TROTE BEM DADO

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                 O corredor do hospital, que costuma ser um lugar de silêncio e passos apressados, hoje transborda uma energia diferente. De um lado, jovens calouros de medicina, com os olhos brilhando pela conquista recente; do outro, pequenos guerreiros que travam batalhas diárias pela vida.Não é um trote comum. Não há tinta, não há gritos, não há medo. O que acontece ali é um rito de passagem para a alma.Uma a uma, as crianças — que já perderam seus próprios cabelos para a quimioterapia — recebem nas mãos a máquina de corte.     Com um misto de timidez e alegria, elas se tornam as protagonistas da história.               Quando a primeira mecha de uma estudante cai no chão, algo mágico acontece: o estigma da doença se dissolve. Ao verem aqueles futuros médicos ficando carecas como elas, as crianças não se sentem mais sozinhas. Elas não veem "doentes" ou "doutores"; veem amigos. Veem que o q...

LÉO 04/10

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        Léo achou que a pousada seria o refúgio perfeito. Doce ilusão. O que ele não previu foi Dona Valéria, a proprietária. Quarenta e poucos anos, curvas esculpidas pelo tempo e um olhar de quem, se for escalada, joga pra ganhar. Ao ver Léo desembarcar — suado, camisa aberta, aquele ar de "cachorro caído do caminhão" — Valéria não viu um hóspede. Viu uma oportunidade.      Manhã seguinte. Batida suave na porta. Antes do "entre", ela já estava lá. Bandeja fumegante, mas nada de chapéu de palha ou botas nos pés. Valéria trajava uma saia comportada e uma blusinha insinuantes que teimava em escorregar pelo ombro. — Bom dia, Leonardo. Achei que você precisasse de um café... privativo — soltou ela, a voz vibrando como um violoncelo. — Lá embaixo é muita poeira, mas poucos empregados. Por isso decidi trazer eu mesma.      Léo, fingindo não notar a mulher pensou inocento: "é só um café". O quarto era um santuário parecia preparado para o pec...

ELES, O TEMPO E EU

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        H á uma sabedoria silenciosa naqueles que compreendem que educar não é cercar, mas alicerçar. "Não dei tudo o que meus filhos queriam, mas do que precisavam nunca lhes deixei faltar", reflete o pai, com a calma de quem atravessou o deserto sem soltar a mão de quem amava. A jornada foi intensa: foram sete colégios, mudando conforme as razões dos filhos ou as diretrizes dos mestres. Houve o clube, o futebol sagrado dos finais de semana, as praias distantes e o cinema — o cenário clássico de uma infância presente e zelosa. Mas a vida, em sua complexidade, permitiu que eles pulassem o muro. Fugiram do estudo das letras para aprender as das mentiras e dos vícios. Nesse momento, muitos se perdem na culpa ou na raiva, mas essa família escolheu um caminho diferente. Não houve a briga que rompe, não houve o silêncio que castiga, e jamais houve a tentativa vã de culpar a sorte ou a Deus.      A pergunta que restava era: que remédio resta quando o abismo ...

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