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UM DIA, UM VAI CHORAR A AUSÊNCIA DO OUTRO

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       O tempo tem um jeito manso e quase invisível de caminhar. Com o passar dos dias, a convivência longa pode fazer com que a gente deixe de notar aquilo que, lá no início, parecia tão especial. Os pequenos detalhes — aqueles que acendiam o brilho nos olhos — acabam escondidos sob a névoa da rotina e abafados pelos hábitos repetitivos do dia a dia.     Aos poucos, sem que percebamos, os incômodos cotidianos começam a ocupar mais espaço na casa e na mente, enquanto a beleza pura e o valor imensurável da presença de quem está ao nosso lado passam quase despercebidos. Mas a verdade guardada no peito é que amar também é uma escolha diária; é escolher olhar de verdade, com toda a atenção do mundo, para os gestos mais simples. É notar o valor de um abraço que demora alguns segundos a mais para soltar, de um café quente dividido à mesa ou de uma sutil demonstração de carinho que chega feito brisa em meio a um dia cansativo.     Afinal de contas, a vid...

O SINAL DO CORREDOR

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        Era uma tarde de domingo quando um ruído tímido na minha porta me chamou a atenção. Baixei o volume da televisão para ter certeza. Era de lá mesmo. Ao abrir, dei de cara com um menino de uns seis anos sentado no chão do corredor. Ele estava com o ouvido colado na madeira, tentando captar o áudio que eu acabara de silenciar. Assustado e envergonhado, o garoto levantou num pulo e correu para o primeiro apartamento do bloco — que, até onde eu sabia, estava desocupado.   F echei a porta, confuso, mas segundos depois a campainha tocou. Era a mãe dele, com os olhos cheios de desculpas. Ela me explicou que haviam acabado de se mudar e estavam sem internet. O filho era completamente fascinado pela Xuxa. Sem ter onde assistir, o pequeno se contentava apenas em ouvir o som que ecoava da minha sala. Aquela cena me partiu o coração. Sem hesitar, anotei minha senha do Wi-Fi em um papel e entreguei a ela. O sorriso de gratidão que recebi daquela mãe foi o melhor pagam...

PAPO DAS SEXTAS

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      O dia de Sofia começava antes de o sol dar as caras, no tranco daquela rotina pesada de quem carrega a casa nas costas depois que o casamento desandou. Do ex-marido, a única coisa que chegava era o boleto pago da escola do menino. O resto — o prato de comida, a roupa lavada, o teto e o dengo — saía direto do suor do trabalho dela lá fora.    Mas, para o orgulho da mãe, o garoto era uma joia. Educado que só ele, compenetrado nos cadernos e com uma inteligência que saltava aos olhos. Sofia olhava para o filho e via o tempo correr no próprio corpo. Ali, naquele meio de caminho entre a mocidade que ficou para trás e a velhice que espreita lá na frente, ela gastava sua vida para fazer a dele. Sabia muito bem que criar filho é como soltar a amarra de uma canoa no rio: quando a gente diz "sim", a barca pode atravessar com segurança, encalhar numa margem qualquer ou se perder correnteza abaixo. Mesmo com o coração na mão, ela soltava as amarras.     No f...

CONTAS DO CORAÇÃO

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         Dois caminhos que um dia foram um só, cheios de curvas, pedras e horizontes brilhantes, agora se reencontram no silêncio da maturidade. Ela, que carregou nos ombros o peso invisível de tantos altos e baixos, doou-se até o limite da própria generosidade. Ele, que cruzou estradas e conquistou tudo o que pretendia da vida, hoje carrega a certeza de que a maior de todas as suas riquezas foi, na verdade, aquela que ficou guardada no colo que o acolhia quando o mundo desabava.      Tudo começou com um toque involuntário na tela de um celular. Um descuido que, para quem aprendeu a ler os sinais da vida, soou como um chamado da alma. Mas aquele silêncio do outro lado da linha despertou um aviso no peito dele: era hora de voltar. Era hora de ver de perto aquela que já não domina as próprias vontades, mas que ainda domina o compasso das suas lembranças.      Ao cruzar aquela porta, o tempo desfez-se em segundos. Aquele corpo, que os ...

AMIGO PARA SEMPRE

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        Há quem diga que a internet é uma terra sem lei e cheia de futilidades. Mas, para mim, ela tem sido o salão onde danço com mentes brilhantes. E, recentemente, fui pego de surpresa por uma homenagem que me deixou com o coração aos pulos e o ego massageado. Meu nobre amigo Flávio Cruz resolveu dedicar algumas linhas da sua lavra literária para falar de uma amizade que nasceu nas telas e se consolidou através das redes sociais.      O homem foi generoso. Comparou-me a Carlos Heitor Cony, elogiou minhas crônicas e celebrou nossos papos diários de pura gozação e disputa de inteligências. É claro que, sendo o sujeito refinado que é, o Flávio não perdeu a chance de me chamar de "meio doido" e soltar aquela pérola de que espera escrever tão bem quanto eu "quando chegar na minha idade".      Ora, vejam só que tamanho de audácia! Flávio, meu caro, esse disparate me comove, mas o público do blog precisa saber a verdade: você é bem mais vel...

AMIGOS PARA SEMPRE

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        Para quem mora longe e sozinho, passar esses dias aí no Rio com vocês foi uma verdadeira terapia para a minha alma.       Obrigado ao meu filho Léo, o mais velho, por ter me levado para rever pessoas queridas que eu não via há décadas; foi um momento de abrir o coração e dar risadas que apagaram qualquer espaço para a tristeza, caso ela existisse. Agradeço também pelo aconchego das nossas conversas de sempre e por ter me falado sobre meus velhos amigos, lá esquecidos.     E ao meu caçula, Bernardo, obrigado por ter se aberto tanto comigo; ver que você me ouvia com tanta atenção no carro me comoveu profundamente.      Um agradecimento especial à Paula. Ver você entrar no banheiro com as mãos na cintura, na hora da minha ducha, para conversar com toda a naturalidade do mundo, me fez voltar no tempo. Lembrei-me de que, há dois anos, quando operei a coluna e dependia de alguém para me dar banho, foi você quem se ofereceu e ...

UM PEDAÇO DA MINHA AMIZADE

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       Eu tinha apenas seis anos, aquela idade mágica onde o mundo parece caber inteiro na palma da nossa mão e a amizade é o sentimento mais sagrado que existe. Minha mãe havia preparado uma festa de aniversário simples, mas cheia de cor. Lembro-me do cheiro do bolo, das velinhas acesas refletindo nos meus olhos cheios de expectativa e do calor das palmas. Mas o momento mais bonito daquela tarde ainda estava por vir.    Quando a faca tocou o bolo, minha mãe sorriu e fez aquela pergunta clássica, que faz o coração de qualquer criança disparar de orgulho: "De quem vai ser o primeiro pedaço?"     Uma sala cheia de olhinhos brilhantes me encarava, esperando. Eu não precisei pensar por um único segundo. Meu peito se encheu de uma certeza bonita e absoluta. Peguei aquele pratinho e, com as mãos trêmulas de emoção, caminhei em direção ao meu melhor amigo. Aquele que eu gostava mais do que tudo, o parceiro de todas as brincadeiras. Entregar o primeiro pe...

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