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CONTAS DO CORAÇÃO

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         Dois caminhos que um dia foram um só, cheios de curvas, pedras e horizontes brilhantes, agora se reencontram no silêncio da maturidade. Ela, que carregou nos ombros o peso invisível de tantos altos e baixos, doou-se até o limite da própria generosidade. Ele, que cruzou estradas e conquistou tudo o que pretendia da vida, hoje carrega a certeza de que a maior de todas as suas riquezas foi, na verdade, aquela que ficou guardada no colo que o acolhia quando o mundo desabava.      Tudo começou com um toque involuntário na tela de um celular. Um descuido que, para quem aprendeu a ler os sinais da vida, soou como um chamado da alma. Mas aquele silêncio do outro lado da linha despertou um aviso no peito dele: era hora de voltar. Era hora de ver de perto aquela que já não domina as próprias vontades, mas que ainda domina o compasso das suas lembranças.      Ao cruzar aquela porta, o tempo desfez-se em segundos. Aquele corpo, que os ...

AMIGO PARA SEMPRE

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        Há quem diga que a internet é uma terra sem lei e cheia de futilidades. Mas, para mim, ela tem sido o salão onde danço com mentes brilhantes. E, recentemente, fui pego de surpresa por uma homenagem que me deixou com o coração aos pulos e o ego massageado. Meu nobre amigo Flávio Cruz resolveu dedicar algumas linhas da sua lavra literária para falar de uma amizade que nasceu nas telas e se consolidou através das redes sociais.      O homem foi generoso. Comparou-me a Carlos Heitor Cony, elogiou minhas crônicas e celebrou nossos papos diários de pura gozação e disputa de inteligências. É claro que, sendo o sujeito refinado que é, o Flávio não perdeu a chance de me chamar de "meio doido" e soltar aquela pérola de que espera escrever tão bem quanto eu "quando chegar na minha idade".      Ora, vejam só que tamanho de audácia! Flávio, meu caro, esse disparate me comove, mas o público do blog precisa saber a verdade: você é bem mais vel...

AMIGOS PARA SEMPRE

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        Para quem mora longe e sozinho, passar esses dias aí no Rio com vocês foi uma verdadeira terapia para a minha alma.       Obrigado ao meu filho Léo, o mais velho, por ter me levado para rever pessoas queridas que eu não via há décadas; foi um momento de abrir o coração e dar risadas que apagaram qualquer espaço para a tristeza, caso ela existisse. Agradeço também pelo aconchego das nossas conversas de sempre e por ter me falado sobre meus velhos amigos, lá esquecidos.     E ao meu caçula, Bernardo, obrigado por ter se aberto tanto comigo; ver que você me ouvia com tanta atenção no carro me comoveu profundamente.      Um agradecimento especial à Paula. Ver você entrar no banheiro com as mãos na cintura, na hora da minha ducha, para conversar com toda a naturalidade do mundo, me fez voltar no tempo. Lembrei-me de que, há dois anos, quando operei a coluna e dependia de alguém para me dar banho, foi você quem se ofereceu e ...

UM PEDAÇO DA MINHA AMIZADE

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       Eu tinha apenas seis anos, aquela idade mágica onde o mundo parece caber inteiro na palma da nossa mão e a amizade é o sentimento mais sagrado que existe. Minha mãe havia preparado uma festa de aniversário simples, mas cheia de cor. Lembro-me do cheiro do bolo, das velinhas acesas refletindo nos meus olhos cheios de expectativa e do calor das palmas. Mas o momento mais bonito daquela tarde ainda estava por vir.    Quando a faca tocou o bolo, minha mãe sorriu e fez aquela pergunta clássica, que faz o coração de qualquer criança disparar de orgulho: "De quem vai ser o primeiro pedaço?"     Uma sala cheia de olhinhos brilhantes me encarava, esperando. Eu não precisei pensar por um único segundo. Meu peito se encheu de uma certeza bonita e absoluta. Peguei aquele pratinho e, com as mãos trêmulas de emoção, caminhei em direção ao meu melhor amigo. Aquele que eu gostava mais do que tudo, o parceiro de todas as brincadeiras. Entregar o primeiro pe...

SAMBA NA BARRA

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        Saí cedo de casa: eu, ela e a filha dela—um pedaço de vida que eu sentia como meu. Passamos um fim de semana numa casa alugada na praia de Vila Velha, um pretexto feliz para abraçar velhos amigos que moram lá e que, volta e meia, corriam ao Rio só para nos ver. Com eles, a vida acontecia sem pressa. Passávamos as tardes bebendo nos quiosques da praia e beliscando peixes fritos na hora; o riso era farto, a cumplicidade era leve e todos os dias ficavam exatamente do jeito que a gente queria.    Pelos olhos deles, conhecemos pessoas interessantes e lugares maravilhosos. Entre eles, a Barra do Jucu, onde Martinho escreveu Madalena do Jucu. Este congo, que ele transformou em samba, virou um pedaço daquela viagem que carrego comigo, na minha playlist, num pen drive preso às chaves do carro, como quem guarda um amuleto contra o esquecimento.    Hoje, os anos passaram. Estou sem Ela ao meu lado, e aquela criança agora já é uma bela mulher, se...

PRÓXIMA ESTAÇÃO: BOM JARDIM.

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      O trem corria sobre os trilhos, mas, na verdade, fugia de uma casa onde o silêncio era a única resposta para a existência daquele menino. Ele era uma criança faminta. Não de pão, mas de um toque na cabeça, de um "eu te amo" que nunca veio dos lábios da própria mãe. Para ela, o filho era apenas um estorvo, um pacote de "peraltices" que precisava ser despachado assim que as férias escolares chegavam.    A salvação dele vinha em forma de fumaça e trilhos, na viagem longa do Rio até Bom Jardim. Ali, na plataforma da estação, o mundo ganhava cor por algumas semanas. Os avós o esperavam. Só deles conheceu o calor de uma mão nos cabelos. Só deles ouviu palavras que curavam o peito. O menino se tornava uma estátua de obediência e mudez; jamais contestava, jamais interpretava mal uma vírgula do que os mais velhos lhe diziam. O medo o moldava. Ele tinha um pavor quase físico de perder aquele amor, de ficar órfão daquele colo por um minuto que fosse.    Mas...

DE OSWALD A MICHEY

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          Um editor de jornal olha para um jovem de 22 anos e diz, com a maior seriedade do mundo, que ele não tem imaginação nem boas ideias. Esse jovem era ninguém menos que Walt Disney. Spoiler: o editor era um péssimo vidente.      Mas se você acha que a reviravolta foi rápida, se acomode na cadeira, porque a vida adora um drama antes da glória.      Determinado a provar seu valor, Walt abre o próprio estúdio de animação. Um ano depois? Falência total. O rapaz ficou tão quebrado que precisou vender a própria câmera só para comprar uma passagem de ida para Hollywood. Na mala, ele levava basicamente roupas de baixo e um rolo de desenho inacabado. Confiança era o seu único patrimônio.      Em Hollywood, ele recomeça do zero absoluto. E não é que dá certo? Ele cria Oswald, o Coelho da Sorte, que vira um tremendo sucesso. Walt, todo empolgado, vai até o distribuidor pedir um aumento no orçamento. Lá, ele toma o maior "...

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