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LÉO 09/10

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        Léo mal tinha começado a se habituar ao ritmo frenético do teclado quando a porta da diretoria se abriu com um impacto suave. Era Mirella, a filha de Beatriz, que trazia consigo uma energia solar que parecia deslocada naquele escritório cinza. Ela se inclinou para dar um beijo na mãe, mas seus olhos, treinados para identificar o que havia de melhor no "catálogo" da vida, travaram imediatamente no rapaz loiro concentrado na tela. — Mãe... quem é o autor desse novo "best-seller"? — perguntou Mirella, sem nenhum pudor, apontando discretamente para Léo.    Beatriz, sentindo o território ser invadido, tentou uma manobra defensiva rápida: — É apenas o novo digitador, querida. Ele tem muito trabalho acumulado e precisa de silêncio absoluto. Aliás, você não tinha uma aula de pilates agora?     Mas Mirella não era do tipo que aceitava uma "revisão" nos seus planos. Ela caminhou até a mesa de Léo, que continuava digitando como se sua vida dependesse...

LÉO 08/10

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            Após meses colecionando nãos e fugindo de bicos que sempre terminavam em confusão, Léo viu uma luz no fim do túnel: um convite para entrevista em uma prestigiada editora de livros. O cargo de digitador parecia o refúgio perfeito; afinal, letras não se apaixonam, e, acima de tudo, não pedem favores "particulares". Na manhã seguinte, o sol do Rio refletia na fachada de vidro do prédio no Centro, quase como um aviso. Léo ajeitou o colarinho, conferiu o nó da gravata e atravessou a porta giratória com a determinação de quem deixa o caos para trás. Aquele prédio espelhado era o seu forte: um labirinto de burocracia onde ele pretendia se tornar invisível. Ele era rápido no declado, atento aos detalhes e, o melhor de tudo: em uma sala de digitação, estaria isolado e em silêncio — longe de pias entupidas, berços para montar ou esposas solitárias. Pelo menos, era o que ele achava. Ao chegar na recepção, veio o primeiro sinal de perigo. A rec...

LÉO 07/10

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        Léo atravessou a ponto de Niterói para o Rio com a alma lavada e o coração em paz. Mas, como diz o ditado, a alegria de pobre dura pouco, e a do Léo dura apenas o tempo de um sinal fechar.      Assim que estacionou em frente ao seu prédio, deu de cara com um caminhão de mudança e uma faixa esticada de janela a janela: "Bem-vindo ao lar, meu herói!".     Antes que pudesse engatar a ré, a filha do dono da padaria — aquela do vazamento na cozinha — surgiu do nada com uma chave na mão e um brilho possessivo nos olhos. Ela não estava sozinha; ao lado dela, o pai, o padeiro portuga, segurava um rolo de massa como se fosse um cetro. — Léo, meu filho! — exclamou o velho. — Já que você salvou a honra da minha menina naquele dia do "conserto da pia", decidimos que você não pode mais viver nesse aperto. Aluguei o apartamento do andar de cima pra vocês!    Léo sentiu o suor frio. A "ajuda" na cozinha tinha virado um noivado por aclamaçã...

LÉO 06/10

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       O sol ainda não tinha acordado quando Léo pegou a estrada para Nova Friburgo, buscando o frio da serra para ver se congelava aquela saudade que não o deixava em paz. O alvo era Selminha, a única que ele nunca deixara entrar em sua lista de "ciladas". Selminha era diferente; para ela, o "bom dia" de Léo sempre tivera o peso de uma promessa.      Ao chegar, o choque térmico: Selminha estava casada. Ele a viu na Praça do Suspiro, de braço dado com um sujeito sólido, de expressão quadrada — o oposto do magnetismo fácil de Léo. Quando os olhares se cruzaram, o tempo em Friburgo parou. Não houve escândalo, apenas aquele riso de canto de boca que só quem tem um passado mal resolvido consegue decifrar. O ar da serra, que deveria ser puro, ficou carregado de uma eletricidade perigosa.      Nos dias seguintes, a cidade virou um tabuleiro. Encontros "acidentais" na Padaria do Paissandu, trocas de olhares por cima das prateleiras do mercado. ...

LÉ0 05/10

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      O Antenor voltou da viagem dois dias depois, trazendo na bagagem o cansaço das estradas e aquele mau humor típico de quem passou horas resolvendo burocracia de fornecedor. Mas, ao cruzar a recepção da pousada, ele travou. Valéria estava radiante. Usava um vestido de flores que não saía do armário havia tempos, cantarolava um samba antigo e exalava um frescor de quem tinha acabado de tirar a sorte grande. — Mas o que é que deu em você, Valéria? Ganhou na loto ou a conta da luz veio barata? — perguntou Antenor, largando as chaves no balcão, desconfiado.     Valéria deu um sorriso que, se fosse no Rio, parava o trânsito da Avenida Brasil. — É o ar da montanha, Antenor. E a caridade. Temos um hóspede novo, um rapaz de uma educação... rara. Ele me ajudou com a "organização" de uns quartos que estavam parados enquanto você estava fora.     Léo, que assistia à cena pela fresta da porta da cozinha, já estava com a mala pronta e o suor frio escorrendo pel...

UM TROTE BEM DADO

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                 O corredor do hospital, que costuma ser um lugar de silêncio e passos apressados, hoje transborda uma energia diferente. De um lado, jovens calouros de medicina, com os olhos brilhando pela conquista recente; do outro, pequenos guerreiros que travam batalhas diárias pela vida.Não é um trote comum. Não há tinta, não há gritos, não há medo. O que acontece ali é um rito de passagem para a alma.Uma a uma, as crianças — que já perderam seus próprios cabelos para a quimioterapia — recebem nas mãos a máquina de corte.     Com um misto de timidez e alegria, elas se tornam as protagonistas da história.               Quando a primeira mecha de uma estudante cai no chão, algo mágico acontece: o estigma da doença se dissolve. Ao verem aqueles futuros médicos ficando carecas como elas, as crianças não se sentem mais sozinhas. Elas não veem "doentes" ou "doutores"; veem amigos. Veem que o q...

LÉO 04/10

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        Léo achou que a pousada seria o refúgio perfeito. Doce ilusão. O que ele não previu foi Dona Valéria, a proprietária. Quarenta e poucos anos, curvas esculpidas pelo tempo e um olhar de quem, se for escalada, joga pra ganhar. Ao ver Léo desembarcar — suado, camisa aberta, aquele ar de "cachorro caído do caminhão" — Valéria não viu um hóspede. Viu uma oportunidade.      Manhã seguinte. Batida suave na porta. Antes do "entre", ela já estava lá. Bandeja fumegante, mas nada de chapéu de palha ou botas nos pés. Valéria trajava uma saia comportada e uma blusinha insinuantes que teimava em escorregar pelo ombro. — Bom dia, Leonardo. Achei que você precisasse de um café... privativo — soltou ela, a voz vibrando como um violoncelo. — Lá embaixo é muita poeira, mas poucos empregados. Por isso decidi trazer eu mesma.      Léo, fingindo não notar a mulher pensou inocento: "é só um café". O quarto era um santuário parecia preparado para o pec...

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