PRÓXIMA ESTAÇÃO: BOM JARDIM.
O trem corria sobre os trilhos, mas, na verdade, fugia de uma casa onde o silêncio era a única resposta para a existência daquele menino. Ele era uma criança faminta. Não de pão, mas de um toque na cabeça, de um "eu te amo" que nunca veio dos lábios da própria mãe. Para ela, o filho era apenas um estorvo, um pacote de "peraltices" que precisava ser despachado assim que as férias escolares chegavam. A salvação dele vinha em forma de fumaça e trilhos, na viagem longa do Rio até Bom Jardim. Ali, na plataforma da estação, o mundo ganhava cor por algumas semanas. Os avós o esperavam. Só deles conheceu o calor de uma mão nos cabelos. Só deles ouviu palavras que curavam o peito. O menino se tornava uma estátua de obediência e mudez; jamais contestava, jamais interpretava mal uma vírgula do que os mais velhos lhe diziam. O medo o moldava. Ele tinha um pavor quase físico de perder aquele amor, de ficar órfão daquele colo por um minuto que fosse. Mas...