LÉ0 05/10
O Antenor voltou da viagem dois dias depois, trazendo na bagagem o cansaço das estradas e aquele mau humor típico de quem passou horas resolvendo burocracia de fornecedor. Mas, ao cruzar a recepção da pousada, ele travou. Valéria estava radiante. Usava um vestido de flores que não saía do armário havia tempos, cantarolava um samba antigo e exalava um frescor de quem tinha acabado de tirar a sorte grande.
— Mas o que é que deu em você, Valéria? Ganhou na loto ou a conta da luz veio barata? — perguntou Antenor, largando as chaves no balcão, desconfiado.
Valéria deu um sorriso que, se fosse no Rio, parava o trânsito da Avenida Brasil.
— É o ar da montanha, Antenor. E a caridade. Temos um hóspede novo, um rapaz de uma educação... rara. Ele me ajudou com a "organização" de uns quartos que estavam parados enquanto você estava fora.
Léo, que assistia à cena pela fresta da porta da cozinha, já estava com a mala pronta e o suor frio escorrendo pela nuca. Antenor, em vez de armar o barraco, ficou até comovido com a disposição do rapaz em ajudar na lida da pousada.
— Pois se o sujeito é prestativo assim, tem que tomar uma comigo! — decretou o dono da pousada, chamando Léo para perto.
O resto da tarde foi uma tortura psicológica. Antenor abriu uma garrafa de cachaça mineira e contava as dificuldades de manter o negócio girando, enquanto Valéria, por trás do marido, lançava olhares para o Léo que valiam por um contrato de exclusividade. O pobre coitado bebia a cachaça sentindo o fogo descer queimando a garganta e a consciência. A cada elogio que Antenor fazia à sua "proatividade", Léo sentia o peso da culpa esmagando sua fidalguia.
Naquela noite, Léo não esperou o sol nascer. Fugiu de madrugada, deixando o dinheiro da estadia sobre a mesa da recepção com um bilhete apressado dizendo que "uma tia no Rio tinha passado mal". Saiu com o carro em ponto morto até o portão, para não despertar o sono pesado de Antenor nem os desejos despertos de Valéria.
A maior cilada da bondade de Léo não foi o pecado; foi o fato de que Antenor agora liga toda semana convidando o rapaz para voltar, dizendo que "a pousada nunca esteve tão bem cuidada e a mulher nunca esteve tão feliz" como naqueles dias. Léo desliga o telefone, olha para o horizonte e suspira: ser bom, às vezes, dá um trabalho danado.

Pois é, acontece...
ResponderExcluirBoa a crônica, mas percebi
que a mala que está na cena
é igualzinha as 2 que meu Filho
Wallace Kyoskys usa para viagem
de trabalho como artista circense e músico.
Será? Se a mala da cena é do Antenor
é uma coisa, mas se é do Lèo, sei não.
Despois em ofm mostro a mala daqui
em uma foto.
Bjins
CatiahôAlc.
Una bonita historia en la que el joven parece no quiso formar parte del trio que parece quería formar Valeria.
ResponderExcluirSaludos.
Mano, você é muito doido, namoral! Vive se jogando nesses esportes radicais, tem zero juízo. O povo já tá dizendo que a gente vai dar match e virar namoro, mas esse pessoal não entende nada de amizade verdadeira. Você é meu melhor parceiro de resenha, seu coroa maluco!
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