ELES, O TEMPO E EU

 



      Há uma sabedoria silenciosa naqueles que compreendem que educar não é cercar, mas alicerçar. "Não dei tudo o que meus filhos queriam, mas do que precisavam nunca lhes deixei faltar", reflete o pai, com a calma de quem atravessou o deserto sem soltar a mão de quem amava. A jornada foi intensa: foram sete colégios, mudando conforme as razões dos filhos ou as diretrizes dos mestres. Houve o clube, o futebol sagrado dos finais de semana, as praias distantes e o cinema — o cenário clássico de uma infância presente e zelosa. Mas a vida, em sua complexidade, permitiu que eles pulassem o muro. Fugiram do estudo das letras para aprender as das mentiras e dos vícios. Nesse momento, muitos se perdem na culpa ou na raiva, mas essa família escolheu um caminho diferente. Não houve a briga que rompe, não houve o silêncio que castiga, e jamais houve a tentativa vã de culpar a sorte ou a Deus.
     A pergunta que restava era: que remédio resta quando o abismo se abre? E a resposta veio com a paciência dos justos: o tempo.
     A cura não se fez por milagre, mas por persistência. Os filhos, que um dia descambaram, encontraram o caminho de volta. Retornaram à família, ao trabalho e ao convívio social com a dignidade de quem venceu uma batalha interna. Hoje, a estrutura é a mesma dos tempos de escola, do jogo de bola e dos tropeços, mas agora ampliada: são pais, filhos, avós e netos, unidos por uma liga que nem o vício foi capaz de corroer.
     Olhando para trás, para as noites em claro e os dias de incerteza, a conclusão é de uma serenidade profunda. Se a vida perguntasse se algo deveria ser diferente, a resposta seria um "não" categórico. "Eu não mudo nada", afirma o patriarca.
     O passado, com suas arestas e dores, é o alicerce do hoje e a base do futuro que virá. 
     Como ousaríamos derrubar uma obra dessa magnitude retirando um único tijolo ou um simples grão de areia daquilo que a sustenta? 
     A história dessa família não é sobre o erro, mas sobre a solidez de uma fundação que permitiu a reconstrução de tudo.

Comentários

  1. Pura verdade, meu amigo: podemos até sugerir, ou indicar; mas cada um precisa encontrar o próprio caminho. Não há outra fórmula que dê certo. Meu abraço, boa semana.

    ResponderExcluir
  2. Aprecio essa perspectiva
    da vida e de tudo já
    construído.
    Penso nessa mesma
    direção.
    Foi bom ler, aliás
    é sempre bom
    ler seus escritos
    meu amigo.
    Bjins
    CatiahôAlc.

    ResponderExcluir
  3. Efectivamente, les podemos orientar, trasmitirles experiencia, pero hay que dejarles volar libres y saber recogerlos cuando le ha herido la vida.
    Saludos.

    ResponderExcluir
  4. Meu pai teve uma pareada dessa. Não assim, mas muito parecida. Um dia, se me der na telha, quem sabe eu não conte...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caso esteja a procura, conte aqui, neste espaço.
      Um abraço pra vc e pro seu pai um beijo de amigo.

      Excluir
  5. Olá,
    Eu também te apoio.
    Tenha um bom resto de dia.
    Vanes.

    ResponderExcluir
  6. Olá, Silvio, muito bonito seu texto, concordo, o tempo,
    sim, e não culpas e procuras para escapar da responsabilidade.
    O tempo é um santo remédio numa sociedade tão doente como a nossa.
    Parabéns, um texto sério, verdadeiro, precisaria ser lido por esse Brasil afora.
    Um abraço e uma boa semana, paz e saúde sempre.

    ResponderExcluir
  7. Nem preciso repetir que adoro sua escrita né?

    Muito feliz em estar por aqui.

    Beijos
    Ani

    ResponderExcluir
  8. Educar hijos es una tarea muy difícil, verlos volar da tristeza y alegría. Tristeza de quedarnos solos y alegría de que ya pueden hacerlo.
    Saludos afectuosos.

    ResponderExcluir
  9. Hola Silvio, paso para darte las gracias por tu visita. Tu texto es precioso, con el cual estoy de acuerdo.

    Saluditos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Seguidores

Postagens mais visitadas deste blog

LÉO 01/10

LÉO 02/10