CONTAS DO CORAÇÃO
Dois caminhos que um dia foram um só, cheios de curvas, pedras e horizontes brilhantes, agora se reencontram no silêncio da maturidade. Ela, que carregou nos ombros o peso invisível de tantos altos e baixos, doou-se até o limite da própria generosidade. Ele, que cruzou estradas e conquistou tudo o que pretendia da vida, hoje carrega a certeza de que a maior de todas as suas riquezas foi, na verdade, aquela que ficou guardada no colo que o acolhia quando o mundo desabava.
Tudo começou com um toque involuntário na tela de um celular. Um descuido que, para quem aprendeu a ler os sinais da vida, soou como um chamado da alma. Mas aquele silêncio do outro lado da linha despertou um aviso no peito dele: era hora de voltar. Era hora de ver de perto aquela que já não domina as próprias vontades, mas que ainda domina o compasso das suas lembranças.
Ao cruzar aquela porta, o tempo desfez-se em segundos. Aquele corpo, que os anos insistiam em curvar aos poucos, guardava a essência da mulher mais importante da sua jornada. Não houve espaço para palavras contidas ou formalidades. Houve abraços — muitos, intensos, daqueles que tentam recuperar as décadas perdidas na distância —, embora ele soubesse, no fundo do coração, que conta nenhuma com a mãe dos seus filhos jamais seria quitada.
Sentado ao seu lado, ele — o jacarandá que um dia pensou ser e agora se via corroído pelo mesmo tempo que também maltratava a beleza daquela senhora — olhava para ela para se certificar de que nenhum dos dois era perfeito. Mas ali, com a saúde dela já debilitada e os anos parecendo mais escassos no horizonte, o que importava não era o que um foi ou deixou de ser no passado, mas a grandiosidade daquele presente.
Diante dos filhos, ali presentes, o gesto silencioso trazia uma lição: o amor deles sempre reinou, absoluto, por cima de qualquer tempestade. Os olhos claros e bonitos dela, que tantas vezes choraram na janela vendo-o partir para buscar o pão em outras cidades no século passado, agora brilhavam com o mesmo sobressalto da juventude. Havia um pudor quase sagrado naquele reencontro. Um medo mútuo de encarar as lágrimas nos olhos um do outro, um receio de que aquele olhar pudesse ser, por um sopro do destino, o último.
Na hora da despedida, o aperto no peito foi o mesmo de outrora. Já dentro do carro que o levava de volta à rodoviária, ele fechou os olhos e sorriu, sabendo exatamente onde ela estaria naquele instante. Certamente em um canto da casa, rezando em silêncio, pedindo que o tempo corra rápido para que a saudade o estrangule novamente. E ele, para não morrer de ausência, sabe que cruzará qualquer distância para reviver no abraço dela o homem que sempre soube voltar.
(silvioafonso)
Lindo e sentido texto.
ResponderExcluirBjins