UM PEDAÇO DA MINHA AMIZADE

   


   Eu tinha apenas seis anos, aquela idade mágica onde o mundo parece caber inteiro na palma da nossa mão e a amizade é o sentimento mais sagrado que existe. Minha mãe havia preparado uma festa de aniversário simples, mas cheia de cor. Lembro-me do cheiro do bolo, das velinhas acesas refletindo nos meus olhos cheios de expectativa e do calor das palmas. Mas o momento mais bonito daquela tarde ainda estava por vir.
   Quando a faca tocou o bolo, minha mãe sorriu e fez aquela pergunta clássica, que faz o coração de qualquer criança disparar de orgulho: "De quem vai ser o primeiro pedaço?"
   Uma sala cheia de olhinhos brilhantes me encarava, esperando. Eu não precisei pensar por um único segundo. Meu peito se encheu de uma certeza bonita e absoluta. Peguei aquele pratinho e, com as mãos trêmulas de emoção, caminhei em direção ao meu melhor amigo. Aquele que eu gostava mais do que tudo, o parceiro de todas as brincadeiras. Entregar o primeiro pedaço a ele era a minha forma inocente de dizer: "Você é o meu favorito no mundo." Ele sorriu, e eu me senti o menino mais feliz do universo.
   O tempo correu, como o tempo sempre faz na infância. Logo, chegou o aniversário dele. Lembro da minha empolgação ao ir para a sua festa, com o coração pulando no peito, certo de que o nosso laço era um espelho, que o que eu sentia por ele era exatamente o que ele sentia por mim.
   Na hora do parabéns, a mãe dele teve uma ideia carinhosa para não gerar ciúmes: colocou uma bandeja com doze bombons reluzentes nas mãos dele e disse para ele distribuir, um a um, para os amigos que ele mais gostava.
   Eu respirei fundo e sorri, completamente tranquilo. Meu coração estava em paz. Eu sabia, com a doce ingenuidade dos meus seis anos, que um daqueles doces seria meu. Eu não precisava ser o primeiro, pensei. Afinal, a amizade não era uma corrida.
   Ele entregou o primeiro bombom. Depois o segundo. O terceiro. Meus olhos seguiam as mãos dele com uma paciência serena. "Logo chega a minha vez", repetia para mim mesmo.
   Mas aí veio o quarto, o quinto, o sexto... Um nó pequenininho começou a se formar na minha garganta. Quando ele estendeu o sétimo e o oitavo bombom para outros meninos, o silêncio da preocupação me abraçou. Senti minhas bochechas esquentarem. Uma pontada de dúvida, fria e dolorosa, atravessou o meu peito: "Poxa, o menino para quem dei o meu primeiro pedaço de bolo vai me deixar por último?", pensei. Mas permaneci ali, estático, engolindo o choro que queria nascer, sem dizer uma única palavra.
   Nove. Dez. Onze.
   Resta apenas um. O último bombom brilhava na bandeja como uma última esperança. Fixei meus olhos nele, segurando o fôlego, implorando mentalmente para que ele me olhasse. Mas, com todo o afeto e entusiasmo que conseguiu demonstrar naquele momento, meu amigo estendeu a mão e entregou o último doce para um menino que eu nunca tinha visto na vida.
   A bandeja ficou vazia. As mãos dele ficaram vazias. E o meu peito também.
   Eu não ganhei nenhum dos doze bombons. Eu não fiz parte do mapa de afetos do meu melhor amigo. Entre tantas crianças ali, eu era invisível para quem eu mais enxergava.
   Eu era apenas um menino de seis anos. Ali, no canto daquela sala barulhenta, enquanto os outros mastigavam o chocolate, engoli a seco a lição mais dolorosa da minha vida. Foi naquele dia que compreendi, antes da hora, uma verdade amarga: o amigo que a gente escolhe para ser o melhor do mundo, na maioria das vezes, só lembra da nossa existência depois de já ter distribuído todos os seus bombons para os outros.
   Foi um aprendizado duro, daqueles que deixam uma cicatriz miúda no coração. Infelizmente, a vida me ensinou cedo demais a diferença entre o amor que a gente dá e o amor que a gente recebe.

-silvioafonso-

Comentários

  1. Nossa que triste.
    Mais é difícil quando encontramos amigos que sentem de verdade o mesmo carinho que sentimentos pôr eles.
    Saiba que mesmo de longe tenho um carinho pôr você

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  2. Estoy de acuerdo con lo que nos dices que con esa edad esas decepciones son mas duras, aunque pienso que su madre debió coger el numero suficiente de bombones para repartir entre todos niños que ibais a acudir al cumpleaños.

    Saludos.

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  3. Me ha dado mucha tristeza el final de tu relato, puede ser que si hubiese caramelos de sobra no hubiera pasado.

    Abrazos.

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