SAMBA NA BARRA
Saí cedo de casa: eu, ela e a filha dela—um pedaço de vida que eu sentia como meu. Passamos um fim de semana numa casa alugada na praia de Vila Velha, um pretexto feliz para abraçar velhos amigos que moram lá e que, volta e meia, corriam ao Rio só para nos ver. Com eles, a vida acontecia sem pressa. Passávamos as tardes bebendo nos quiosques da praia e beliscando peixes fritos na hora; o riso era farto, a cumplicidade era leve e todos os dias ficavam exatamente do jeito que a gente queria.
Pelos olhos deles, conhecemos pessoas interessantes e lugares maravilhosos. Entre eles, a Barra do Jucu, onde Martinho escreveu Madalena do Jucu. Este congo, que ele transformou em samba, virou um pedaço daquela viagem que carrego comigo, na minha playlist, num pen drive preso às chaves do carro, como quem guarda um amuleto contra o esquecimento.
Hoje, os anos passaram. Estou sem Ela ao meu lado, e aquela criança agora já é uma bela mulher, seguindo seu próprio rumo. De repente, ouço no rádio, vindo de um apartamento vizinho, Martinho cantando a mesma canção. O som invadiu minha sala e me transportou imediatamente àqueles tempos doces. Na época, eu até sabia que era feliz, mas o tempo—esse sopro implacável—fez tudo passar como uma brisa maravilhosa que toca o nosso rosto num dia de sol forte, abrandando o calor e deixando apenas o frescor na memória.
Sinto uma saudade imensa daquela gente, das tardes nos quiosques e dos sorrisos na areia. Porém, a maior saudade de todas eu sinto de mim. Do homem que eu era quando as amava, do que fui ao lado delas e do que eu poderia ter sido sem elas. Aqueles dias me transformaram. Não me esqueço de nenhum detalhe, e basta um passarinho cantar próximo à minha janela para me levar de volta aos tambores de congo na Barra do Jucu, onde o amor era simples e eterno para mim, para o povo que deixei lá, e, certamente, para elas: a mãe e a filha.
-silvioafonso-
-silvioafonso-

Nossa que história linda....
ResponderExcluirFoi muito feliz nesse passeio.
Vila Velha é linda 🥰🥰🥰