PRÓXIMA ESTAÇÃO: BOM JARDIM.

 

    O trem corria sobre os trilhos, mas, na verdade, fugia de uma casa onde o silêncio era a única resposta para a existência daquele menino. Ele era uma criança faminta. Não de pão, mas de um toque na cabeça, de um "eu te amo" que nunca veio dos lábios da própria mãe. Para ela, o filho era apenas um estorvo, um pacote de "peraltices" que precisava ser despachado assim que as férias escolares chegavam.
   A salvação dele vinha em forma de fumaça e trilhos, na viagem longa do Rio até Bom Jardim. Ali, na plataforma da estação, o mundo ganhava cor por algumas semanas. Os avós o esperavam. Só deles conheceu o calor de uma mão nos cabelos. Só deles ouviu palavras que curavam o peito. O menino se tornava uma estátua de obediência e mudez; jamais contestava, jamais interpretava mal uma vírgula do que os mais velhos lhe diziam. O medo o moldava. Ele tinha um pavor quase físico de perder aquele amor, de ficar órfão daquele colo por um minuto que fosse.
   Mas o tempo é cruel com os meninos tristes. A velhice cobrou o seu preço, e a morte levou os avós. A única fonte de afeto daquele deserto secou.
   Vazio, ele se tornou um jovem que vagava recolhendo migalhas. Seduzia o coração das mocinhas, fazia com que se apaixonassem e, logo em seguida, as trocava por outras. O mundo via ali um rapaz frio, um predador de corações. Dedos rudes apontavam contra ele em sinal de desprezo, mas ninguém enxergava o órfão desesperado por trás da máscara. Ele não queria feri-las. O jovem apenas garimpava, no olhar de cada uma, aquele amor sem cobranças da infância. Buscava o colo que não exigisse horas de viagem de trem, as histórias contadas só para ele antes de dormir. Queria ser salvo, mas só sabia destruir.
   "Isso foi no século passado", sussurram os fantasmas ao redor do homem. Hoje, ele é apenas um velho. Um idoso que carrega o peso dos anos e que, segundo os olhares julgadores que ainda o cercam, deveria esquecer o passado. Mas como ele poderia esquecer o espinho que rasgou a pele no dia em que tentou roubar uma flor? Como esquecer o sangue no dedo, o arranhão na perna e o terror de precisar mentir para sobreviver à cara feia que a mãe fazia? A dor da infância não envelhece; ela apenas cria rugas.
   Agora, ele é escritor. Usa a ponta dos dedos para dar vida a personagens sob nomes que inventa, que carregam as suas próprias dores. Quando as pessoas leem os seus escritos, dizem sentir um carinho, como se sentissem mãos a acariciar seus cabelos e a sussurrar palavras bonitas ao pé do seu ouvido. Dizem que seus textos as fazem chorar. Mas isso não o cura. Não era isso que ele almejava.
   O menino triste que apanhava, o garoto que nunca ouviu um "eu te amo" dentro da sua própria casa, ainda chora trancado no peito daquele velho. Os leitores choram a dor do personagem, sem saber que estão chorando pelo autor — aquele que usa a mentira na sua escrita como um disfarce para não enlouquecer. Ou seriam todos os mentirosos do mundo loucos sem nome, e só ele o único louco real, com nome, sobrenome, endereço e um telefone que nem sempre toca?





Comentários

  1. Una historia desgarradora la de esta persona que la falta de ese amor maternal, el que todos nos pensamos algo que nunca faltara, no solo le marco la infancia también la vida.
    Esta historia también demuestra que la infancia nos puede marcar la vida en todos aspectos.

    Saludos.

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  2. Nossa não tem como não se emocionar que essa história. Como gostaria de estar perto de você prá te fazer um cafuné e te dá um abraço quente prá sentir o grande carinho que tenho pôr você meu amigo 🖤❤️

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