O OFÍCIO DE EMOCIONAR:

 



     Quando alguém se debulha em lágrimas ao ouvir uma canção, o compositor, em algum lugar do tempo, chora em uníssono. Há uma corda invisível e sagrada que amarra a ponta da caneta ao abismo do peito de quem a ouve. É essa mesma linhagem de afeto que transborda na colação de grau de um novo doutor: no instante em que o diploma toca as mãos trêmulas do aluno, atrás dele não pulsa apenas o coração da mãe — ali estão mestres que, no silêncio da alma, enxugam o pranto que insiste em inundar o olhar.
     Assim vive o escritor. Seu sustento não vem apenas do papel, mas do ofício de esculpir o intangível, moldando palavras que servem de abrigo para quem o prestigia com o olhar. É um ato de entrega absoluta: o autor se despe de suas próprias defesas para que o leitor, em meio à sua própria emoção, encontre um manto para se cobrir.
     E quando a frase, como uma flecha certeira, toca o ponto mais profundo da memória, o leitor — do mais humilde ao mais austero — vê-se rendido por uma lágrima furtiva, uma traição bendita dos olhos. O que ele mal desconfia é que, do outro lado da página, quem escreve já se afogou naquele mesmo sentimento. Porque a verdadeira escrita nunca foi um gesto solitário; é um encontro de almas no altar da vida, onde a dor ou o riso de um é, para o outro, o batismo final

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