LÉO 08/10

 



         Após meses colecionando nãos e fugindo de bicos que sempre terminavam em confusão, Léo viu uma luz no fim do túnel: um convite para entrevista em uma prestigiada editora de livros. O cargo de digitador parecia o refúgio perfeito; afinal, letras não se apaixonam, e, acima de tudo, não pedem favores "particulares". Na manhã seguinte, o sol do Rio refletia na fachada de vidro do prédio no Centro, quase como um aviso. Léo ajeitou o colarinho, conferiu o nó da gravata e atravessou a porta giratória com a determinação de quem deixa o caos para trás. Aquele prédio espelhado era o seu forte: um labirinto de burocracia onde ele pretendia se tornar invisível. Ele era rápido no declado, atento aos detalhes e, o melhor de tudo: em uma sala de digitação, estaria isolado e em silêncio — longe de pias entupidas, berços para montar ou esposas solitárias. Pelo menos, era o que ele achava.
Ao chegar na recepção, veio o primeiro sinal de perigo. A recepcionista, ao ler o nome dele, não se limitou a carimbar o crachá; deu uma conferida lenta, de baixo para cima, no seu porte de galã loiro.
— Ah... então você é o Leonardo. O currículo diz que você tem "dedos ágeis". A editora-chefe está te esperando na sala dela.
Léo foi conduzido até a sala da diretoria. Atrás de uma mesa de madeira maciça estava Beatriz, a mulher do dono da editora. Ela não tinha a aparência de "patroa" que ele imaginara; era uma mulher elegante, de olhos afiados como quem revisa um texto em busca de erros. Assim que Léo entrou, ela deixou a caneta-tinteiro cair "acidentalmente".
— Por favor, rapaz, pode pegar para mim? — disse ela.
Léo, com sua fidalguia incurável, inclinou-se para recolher o objeto. Foi quando sentiu o perfume francês dela invadir seu espaço pessoal.
— Sabe, Leonardo, o cargo é para digitador, mas aqui valorizamos a "polivalência". O setor de digitação é muito solitário. Às vezes, preciso de alguém que traga os manuscritos aqui na minha sala... alguém de confiança, entende? Que saiba guardar os segredos dos nossos autores.
Léo olhou para as máquinas e computadores lá fora, que pareciam ilhas de segurança, e depois para Beatriz, que parecia uma predadora pronta para publicar seu primeiro capítulo de escândalo. Para piorar, no corredor, um grupo de revisoras já cochichava apontando para o "novo digitador" como se ele fosse o lançamento literário do ano. Léo percebeu que o salário era ótimo, mas o preço a pagar seria, mais uma vez, sua paz de espírito.

Comentários

  1. Supongo que tendrá una segunda parte.
    Saluditos.

    ResponderExcluir
  2. Mano, para de caô que esse Léo é você no passado! 😂 "Dedos ágeis" e "porte de galã loiro"? Tu se garantiu muito nessa história! Mas ó, o texto tá sensacional, você escreve bem demais.
    "Só não vai cair na conversa da dona Beatriz, hein?"👀 Juízo!"

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Seguidores