LÉO 09/10

 



      Léo mal tinha começado a se habituar ao ritmo frenético do teclado quando a porta da diretoria se abriu com um impacto suave. Era Mirella, a filha de Beatriz, que trazia consigo uma energia solar que parecia deslocada naquele escritório cinza. Ela se inclinou para dar um beijo na mãe, mas seus olhos, treinados para identificar o que havia de melhor no "catálogo" da vida, travaram imediatamente no rapaz loiro concentrado na tela.
— Mãe... quem é o autor desse novo "best-seller"? — perguntou Mirella, sem nenhum pudor, apontando discretamente para Léo.
   Beatriz, sentindo o território ser invadido, tentou uma manobra defensiva rápida:
— É apenas o novo digitador, querida. Ele tem muito trabalho acumulado e precisa de silêncio absoluto. Aliás, você não tinha uma aula de pilates agora?
    Mas Mirella não era do tipo que aceitava uma "revisão" nos seus planos. Ela caminhou até a mesa de Léo, que continuava digitando como se sua vida dependesse de cada vírgula, e apoiou-se levemente na divisória.
— Digitador? Com esses dedos? — ela riu, lançando um olhar que faria qualquer parágrafo perder o sentido. — Mãe, eu estava pensando... como os manuscritos do meu TCC são complexos, eu poderia usar a "consultoria" dele em casa, à noite. O que você acha, Leonardo? Você prefere o ar-condicionado da diretoria ou a vista da minha varanda na Lagoa?
    Léo, finalmente percebendo que a conversa era com ele, parou os dedos no meio de uma palavra. Ele sentiu o olhar gélido de Beatriz de um lado e o brilho predatório de Mirella do outro. Era o ápice da sua fidalguia sendo testada: se escolhesse a mãe, garantia o emprego sob o risco de virar "assistente pessoal" em tempo integral; se escolhesse a filha, teria um romance de cinema, mas um bilhete de demissão assinado pela sogra antes do primeiro encontro.
    Léo percebeu que qualquer resposta direta seria um xeque-mate. Ele respirou fundo, deu aquele sorriso de quem pede desculpas por ser gentil e disse:
— Dona Beatriz, Mirella... eu acabei de notar que vocês duas têm exatamente o mesmo olhar crítico. Como o cargo é para digitador e não para mediador de conflitos, temo que minha "produtividade" seja nula se eu não consultar o manual de ética... que está no meu carro. Com licença?
    Antes que mãe ou filha pudessem contestar a lógica, Léo já estava apertando o botão do elevador com a agilidade de quem digita cem palavras por minuto.

Comentários

  1. Un buen ejemplo para demostrar lo que es estar entre la espada y la pared.

    Saludos.

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  2. Passei por algo parecido, qd tinha uns 17 anos: fui pedir para namorar "na porta" (lembra?) e a mãe queria me jogar no sofá. ;) Abração, boa semana.

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