LÉO 0010

 


     Léo achou que o elevador da editora fosse um portal para a liberdade, mas o destino, com seu senso de humor cruel, tinha outros planos. No dia seguinte, ele recebeu duas mensagens quase simultâneas. Beatriz, a mãe, exigia sua presença no Restaurante Albamar, no Centro, para "discutir os termos confidenciais do contrato". Mirella, a filha, enviou uma localização de um quiosque discreto na Urca, alegando que "precisava de ajuda urgente com a formatação de um arquivo corrompido".
   Léo, em um momento de puro desespero e fidalguia, tentou desmarcar, mas ambas foram taxativas: se ele não aparecesse, elas iriam buscá-lo em casa. O suor frio de Léo agora era uma cachoeira. Ele sabia que o Rio é um ovo, mas o que aconteceu a seguir foi um erro de cálculo geográfico digno de um best-seller de comédia.
   Devido a uma manifestação no Centro, Beatriz mudou o encontro para o mesmo quiosque na Urca, buscando "um ar mais leve". Léo chegou primeiro, com o pedido de demissão já impresso e dobrado no bolso interno do paletó.
   A primeira a surgir foi Mirella, radiante em um vestido de seda.
— Sabia que você viria, Leonardo. O "arquivo" que eu quero formatar é o nosso futuro... — começou ela, sentando-se à mesa.
    Antes que Léo pudesse gaguejar uma resposta, o som de saltos altos sobre o calçadão anunciou o apocalipse. Beatriz apareceu, impecável e gélida. O choque térmico foi instantâneo. Mãe e filha se encararam com a mesma expressão predatória que Léo vira no escritório.
— Mirella? O que você faz aqui com o meu digitador? — disparou Beatriz.
— Seu? Mãe, ele é meu consultor particular de TCC! — rebateu a filha.
   Léo sentiu que o ar da Baía de Guanabara tinha acabado. As duas começaram um bate-boca editorial sobre quem tinha "prioridade de publicação" sobre o rapaz loiro. Foi então que o Léo "faz-tudo" deu lugar ao Léo "homem de negócios". Ele se levantou, manteve a postura impecável e colocou dois envelopes idênticos sobre a mesa.
— Senhores... ou melhor, divindades. — começou ele, com uma calma que parecia milagre. — Percebi que a "polivalência" que a editora exige está acima das minhas capacidades técnicas. Aqui estão minhas cartas de demissão. Uma para a Diretoria e outra para o... Departamento de TCC.
   As duas pararam, boquiabertas. Léo deu aquele meio sorriso de quem acaba de salvar a própria alma.
— O salário é ótimo, mas descobri que sou um digitador de um capítulo só. E esse capítulo acabou de ser revisado.
  Ele nem esperou o garçom trazer a conta. Girou nos calcanhares e caminhou em direção ao carro.  Léo agora só tinha um objetivo: encontrar um emprego onde as máquinas de escrever fossem de ferro e as chefias fossem, preferencialmente, homens de muita idade e poucas palavras.

Comentários

  1. Creo que adopto una decisión salomónica, aunque la del rey Salomón fue partir al niño en dos, aquí Leo decidió escapar antes de que le ocurriera como al niño.

    Saludos.

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  2. - Esse perdeu as mulheres e o emprego. KKKK

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